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24/12/2009 11:38 Título:Declaração de ano novo de um surfista de alma Eram quase 16h. Aparentemente, seria mais uma terça-feira qualquer. Mas não seria. O tempo estava nublado. Na verdade, estava fechado mesmo. O céu em tons de um cinza escuro davam a impressão de que era mais tarde naquela praia. Garoava.
Parei então o carro no lugar de costume. Aliás, tem tanta coisa nessa vida que a gente só faz de costume. Quando menos esperamos, estamos novamente cara a cara com a rotina. Mas, algo me consolava: eu a estava desafiando em mais uma vez.
Parei o Uno 93 no mesmo lugar, mas me sentia o último dos homens naquele momento, por ter ido até o mar para encará-lo novamente com minha prancha 7.1 ... é, às vezes, encaro o mar; em outras, eu bato um papo com ele.
Mas, o mar também tinha desafiado a rotina dos últimos anos dele. Estava – na linguagem dos pegadores de onda – ‘back wash’: um tipo de mar que a onda faz que forma e não forma. Ou, simplesmente, mexido demais. Fiquei ali, no carro, com as janelas fechadas, escutando a força dos pingos aumentarem.
Não havia mais ninguém, além de mim, estacionado naquela ladeira. No mar, então, não havia um surfista vivo. Apenas um casal apressava os passos para deixar a praia.
Se passou meia hora. Eu ainda estava ali, me perguntando se não teria sido melhor ter seguido a rotina e ido pra casa após o trabalho, mais especificamente para a cama, debaixo de lençois, com o clima naquelas condições de chuva e frio. Ventava forte. De repente, o mar muda suas feições. Continua mexido, mas as ondas aumentaram consideravelmente.
Um outro surfista, ao longe, me chama a atenção. ‘Não acredito’. Pensei. ‘O cara é maluco! Vai entrar nesse mar?’. Ele caminhava com uma estranha serenidade em meio aos fortes pingos. Os cabelos grandes estavam molhados e tinham um tom de branco. Era esguio e trajava apenas uma bermuda vermelha. ‘Pôxa, nem um short jhon esse cara vai vestir?’.
As ondas aumentaram e eu estava praticamente debruçado sobre o painel do carro. Pensei que poderia descer e tentar evitar o ‘maluco’ de encarar aquele mar. Não dava pra ver nem o horizonte. Mas, não dava mais tempo, o surfista entrou no mar e, com a mesma serenidade, furou todas as ondas na forte arrebentação. Eu não sabia o que pensar.
A confusão na cabeça aumentou ainda mais quando vi uma verdadeira ‘Mórra’ (maior onda da série) apontar no embaçado horizonte e ver o cara remando pra ela. ‘Vai levar um caldo daqueles’, pensei e torcendo pra que o pior não acontecesse. Pra minha surpresa, ele dropou. Foi o drop mais consciente que já vi na vida. Meus olhos estavam abertos, meu corpo paralisado e minha mente confusa.
Continuou dropando... uma, duas, três.... perdi a conta. Tubos, rasgadões solitários, floaters e um aéreo que eu diria ‘insano’. Ao meu ver, naquela manobra, a prancha havia descolado uns quase 2 metros do lip. Com essa, ele deixa o mar. Crava a prancha na areia e me dá um aceno. Neste momento, eu estava fora do carro, parado com os braços cruzados, embasbacado. Sem palavras. Os pingos me molhavam, mas não sentia o frio. Estava absorto diante do que acabara de contemplar.
De repente, ele deixa a prancha na areia. Mas, antes de ir, se agacha e escreve:
“Sou JC e te acompanho nesse mar todos os dias”. A frase mudaria muito da minha rotina daquele dia em diante...
Acredito que aquele surf foi visto por outros surfistas também. Acredito que outros também tiveram a visita daquele Homem. Cada um, na sua rotina particular. Muitos ainda esperam a visita dele nesta época do ano. Mas, ele chega assim.. em uma terça-feira modorrenta. Num dia sem avisar.. talvez, nublado também.
Essa é uma crônica de ano novo, de um surfista de Alma. Deixo que você conclua o que preferir.
ah.. e feliz 2010!
Bira Nascimento | comentários(0)
02/12/2008 09:10 Na menor distancia...
Hoje... eu desejei estar na tua direção...
Te imaginei somente a poucos palmos de mim
Onde em passos calmos eu encenava uma surpresa
E torcia para que dissesse, em um terno sorriso,
que estavas sem pressa
Onde eu te perguntava
qualquer coisa assim
Hoje... fechei os olhos e me imaginei nos teus sonhos
Onde eu perdia o medo de dizer tantas bobagens
E me vinha coragem para desfazer tua bagagem
e aquela toda tua vontade de ir embora
Sim.. e nesse espaço sem distância ou horas
Eu tentaria te esconder o meu receio e usaria palavras curtas
Baixo, então, o olhar e ao teu lado ... me ponho..
Mas, disfarço as intenções em uma cortina de gestos
Fina, transparente, quase inexistente
Que a ti denuncia, do meu silêncio, as entrelinhas
Não a do verso, mas da palavra inacabada e de um olhar não dito
Sim, e meio à toa, meio aflito
Me vejo em teu caminho, na espera do mesmo metrô
Na mesma estação ou num casual banco de praça
Te enceno então um sorriso
E te digo... não mais encurtando as palavras
Que nada foi surpresa
E que, na verdade, tenho pressa
Pra não mais te esconder meus olhos
Pra te ter ao lado...na menor distancia entre os lábios
A menos de um palmo de mim...
Os poemas são autorais. Copyright@
Bira Nascimento | comentários(3)
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